Abaporu – Tarsila (ENEM Artes): Notas de revisão
Abaporu - Tarsila do Amaral
Introdução à obra
O quadro "Abaporu" representa uma das criações mais importantes e reconhecidas da arte brasileira. Esta obra icônica foi produzida pela artista paulista Tarsila do Amaral em 1928, sendo posteriormente presenteada ao seu marido, o escritor Oswald de Andrade. A pintura se tornou um marco fundamental do modernismo brasileiro, inaugurando especificamente a fase antropofágica deste movimento artístico.
Em 1995, a tela foi vendida para um colecionador argentino por um valour histórico de 1,43 milhão de dólares. Atualmente, a obra está preservada no Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (MALBA).
A venda de 1995 estabeleceu um recorde para a arte brasileira na época, demonstrando o reconhecimento internacional da obra de Tarsila do Amaral e consolidando "Abaporu" como uma das pinturas mais valiosas da América Latina.
Análise e significado da obra

A etimologia do nome "Abaporu" deriva da língua tupi, combinando três elementos: "aba" (homem), "poru" (gente) e "u" (comer). Dessa forma, o significado literal é "homem que come gente" ou "homem antropófago", estabelecendo uma conexão direta com os conceitos do movimento antropofágico.
Exemplo de Etimologia Tupi: Abaporu
Decomposição da palavra:
- aba = homem
- poru = gente
- u = comer
Resultado: "homem que come gente" = conceito de antropofagia cultural
A composição visual apresenta uma figura humana sentada em posição contemplativa, situada em uma paisagem árida e ensolarada. O aspecto mais marcante da obra é a desproporção intencional entre os membros do corpo, especialmente os pés e as mãos, que aparecem em dimensões exageradas. Esta técnica artística ficou conhecida como "gigantismo" e foi amplamente utilizada por Tarsila em diversas outras obras.
A ênfase dada aos pés e mãos simboliza a importância do trabalho manual do povo brasileiro, representando a força e a capacidade produtiva da população. A cabeça menor pode sugerir uma crítica ao "apaziguamento" intelectual ou à falta de pensamento crítico da sociedade.
Características visuais e técnicas
A paleta de cores escolhida pela artista remetia diretamente à brasilidade, com destaque para o verde, amarelo e azul - cores da bandeira nacional. O cacto e o sol também fazem referência direta à cultura brasileira, especialmente à região do Nordeste, que possui essa vegetação e sol intenso durante todo o ano.
A cabeça apoiada na mão e o cotovelo no joelho sugerem, além da posição contemplativa, um estado de abatimento, melancolia, apatia ou até mesmo depressão, conferindo à obra uma dimensão de crítica social.
A técnica do "gigantismo" não era exclusiva de "Abaporu" - Tarsila do Amaral utilizou essa abordagem em outras obras importantes como "A Negra" (1923) e "Antropofagia" (1929), criando uma linguagem visual característica de sua fase antropofágica.

Movimento Antropófago
O movimento antropófago - ou antropofágico - constituiu uma corrente artística dentro do modernismo brasileiro. O impulso para a criação deste movimento foi justamente o quadro "Abaporu", que inspirou os artistas a desenvolverem trabalhos com uma perspectiva voltada para a cultura nacional, mesmo mantendo influências das vanguardas europeias.
O conceito central era "deglutir" a arte produzida na Europa e unificar a ela elementos e interesses do povo brasileiro, resultando em um tipo de arte genuinamente nacional. Esta ideia revolucionária propunha uma relação não submissa com a cultura europeia, mas sim uma assimilação crítica e criativa.
Em 1928, Oswald de Andrade criou o "Manifesto Antropófago", um documento que estabelecia de forma satírica, bem-humorada e poética as bases da nova corrente cultural.

O manifesto continha frases marcantes como: "Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question."
A famosa frase "Tupi, or not tupi that is the question" é uma paródia da célebre frase de Hamlet, de Shakespeare ("To be, or not to be, that is the question"), demonstrando o humour e a irreverência característicos do movimento antropofágico.
Sobre Tarsila do Amaral

Tarsila do Amaral nasceu em 1º de setembro de 1886 na cidade de Capivari, interior paulista. Oriunda de uma família de posses, estudou em São Paulo e completou sua formação em Barcelona, na Espanha. Seu interesse pela arte desenvolveu-se ainda na adolescência, quando pintou sua primeira tela aos 16 anos.
Entre 1926 e 1930, foi casada com o artista e agitador cultural Oswald de Andrade. Durante esse período, o casal se associou a outros artistas no chamado "Grupo dos Cinco", composto por eles e por Anita Malfatti, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Juntos, eles promoveram uma nova fase cultural no Brasil.
O "Grupo dos Cinco" foi fundamental para o desenvolvimento do modernismo brasileiro. Além de Tarsila e Oswald, incluía figuras centrais como Anita Malfatti (pioneira da arte moderna no Brasil), Mário de Andrade (poeta e crítico) e Menotti Del Picchia (escritor e jornalista), formando um núcleo intelectual que revolucionou a cultura brasileira.
Em 1965, a artista passou por uma cirurgia na coluna e ficou paralisada em decorrência de erro médico. Tarsila faleceu aos 86 anos, em 1973, deixando um legado artístico inestimável.
Releituras contemporâneas
Como acontece com obras de arte importantes, o quadro "Abaporu" também foi objeto de releituras. O artista Alexandre Mury, nascido em São Fidélis (interior do Rio de Janeiro), criou uma versão fotográfica da tela em 2010, compondo um trabalho maior no qual se fotografa em diversas outras releituras de obras icônicas.

Além disso, existe uma versão do "Abaporu" produzida pelo famoso artista plástico Romero Britto, que aplicou seu estilo característico de pop art colorida e geométrica à composição original.

A influência contínua de "Abaporu" na educação artística é notável - a obra vem sendo amplamente utilizada como material pedagógico, e diversos estudantes brasileiros já reproduziram suas próprias releituras, demonstrando como a pintura continua inspirando novas gerações de artistas.
Lembre-se!
Pontos-chave para relembrar:
- O nome "Abaporu" significa "homem que come gente" na língua tupi e deu origem ao movimento antropofágico brasileiro
- A obra foi criada em 1928 por Tarsila do Amaral e inaugurou a fase antropofágica do modernismo brasileiro
- A técnica do "gigantismo" (pés e mãos exagerados) simboliza a força do trabalho manual do povo brasileiro
- As cores verde, amarelo e azul remetem à bandeira nacional e reforçam a identidade brasileira
- O movimento antropofágico propunha "deglutir" a arte europeia e misturá-la com elementos da cultura brasileira para criar uma arte genuinamente nacional