Obras modernistas de Tarsila do Amaral (ENEM Artes): Notas de revisão
Obras modernistas de Tarsila do Amaral
Introdução ao modernismo brasileiro
O modernismo brasileiro representou um momento histórico fundamental em que os artistas buscavam criar uma renovação artística nacional. Inspirando-se nas vanguardas europeias, os criadores brasileiros desenvolveram obras que estabeleciam diálogos com a cultura nacional, rompendo com os padrões estéticos tradicionais da época.
O movimento modernista brasileiro não foi apenas uma imitação das tendências europeias, mas sim uma reinterpretação criativa que incorporava elementos da cultura nacional, criando uma linguagem artística genuinamente brasileira.
Tarsila do Amaral emergiu como uma das figuras mais importantes deste movimento, contribuindo de forma decisiva para a consolidação desta nova corrente artística no Brasil. Sua produção atravessou diferentes fases, cada uma com características e temáticas específicas que refletiam os contextos sociais e culturais do país.
As principais obras modernistas
1. A Negra (1923)

Esta obra marca o início da fase mais reconhecida de Tarsila, apresentando uma figura feminina negra com características físicas acentuadas - mãos e pés grandes, seios volumosos e cabeça pequena. A composição incorpora elementos do cubismo europeu, visíveis no tratamento geométrico do fundo da tela.
A representação carrega um peso simbólico significativo, retratando a mulher negra como portadora de uma herança social complexa. O olhar melancólico e o seio exposto remetem à prática histórica das amas de leite durante o período escravocrata, quando mulheres escravizadas cuidavam dos filhos das famílias da elite branca.
Esta obra representa uma das primeiras tentativas de abordar a herança escravocrata brasileira através da arte modernista, tratando de questões sociais e raciais que eram frequentemente ignoradas pela arte tradicional da época.
Criada em 1923, um ano após a Semana de Arte Moderna, esta pintura a óleo mede 100 x 80 cm e integra atualmente o acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.
2. A Cuca (1924)


A composição apresenta uma figura extraída do folclore brasileiro e do imaginário popular nacional. A lenda tradicional descreve a cuca como uma bruxa malévola com aparência de jacaré que rapta crianças desobedientes.
A importância do folclore na obra de Tarsila
A incorporação de elementos folclóricos como a Cuca demonstra como os artistas modernistas buscavam fontes genuinamente brasileiras para sua arte, valorizando a cultura popular em contraposição aos temas clássicos europeus.
Executada com cores vibrantes e tropicais, a tela evoca a infância e exibe diversos animais em uma natureza exuberante. Esta criação pertence à fase modernista Pau-Brasil, que antecedeu o movimento antropofágico na trajetória artística da pintora.
A obra foi produzida em 1924, medindo 73 x 100 cm, utilizando a técnica mista de tinta a óleo, e encontra-se preservada no Museu de Grenoble, na França.
3. São Paulo (Gazo) (1924)

Esta pintura integra a fase Pau-Brasil de Tarsila, constituindo um dos marcos representativos do período. A artista explora elementos urbanos e a modernização das cidades, contrastando com as paisagens tropicais e a valorização da fauna e flora brasileiras.
A perspectiva da industrialização
Conforme observado pelo historiador e artista Carlos Zilio, trabalhos como este posicionam a percepção do Brasil através da perspectiva aberta pela industrialização, capturando a transformação urbana em curso no país durante os anos 1920.
A obra captura a transformação urbana em curso no país durante os anos 1920, representando o contraste entre o Brasil rural e o Brasil que se modernizava.
Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela de 1924, com dimensões de 50 x 60 cm, pertencente a uma coleção particular.
4. Morro da Favela (1924)

Esta obra pertence ao período Pau-Brasil e retrata uma favela através de casas coloridas, árvores e figuras humanas. Constitui uma obra de crítica social, pois nesta época a população pobre foi compelida a ceder espaço nos grandes centros urbanos e se transferir para zonas periféricas.
Contexto social da urbanização
Este momento coincidiu com um aumento significativo das favelas no país, resultado direto das transformações urbanas que empurravam a população mais pobre para as periferias das cidades em crescimento.
Apesar da crítica social implícita, Tarsila consegue retratar esta realidade de forma suave, sugerindo uma harmonia e idealizando o morro como um lugar idílico. A composição data de 1924, possui dimensões de 64 x 76 cm e faz parte de uma coleção particular.
5. Abaporu (1928)


Uma das criações mais célebres de Tarsila, o Abaporu representa uma obra fundamental do modernismo brasileiro. O título deriva da junção das palavras tupis "aba" (homem), "pora" (gente) e "u" (comer), significando "homem que come gente" ou antropófago.
A etimologia de Abaporu
A escolha do nome em tupi-guarani não foi casual - representava o desejo dos modernistas de valorizar as raízes indígenas brasileiras e criar uma arte que dialogasse com as origens culturais do país.
A obra foi concebida pensando na cultura brasileira e apresenta uma pessoa sentada em posição reflexiva. A figura exibe grandes proporções corporais e está inserida em uma paisagem tipicamente brasileira, mais especificamente nordestina, evidenciada pela presença do cacto.
O nascimento do movimento antropofágico
Este quadro serviu como impulso para uma nova fase no modernismo brasileiro: o movimento antropofágico, que propunha "devorar" as influências culturais estrangeiras para criar uma arte genuinamente nacional.
Abaporu foi produzida em 1928 utilizando a técnica óleo sobre tela e mede 85 x 72 cm. Atualmente encontra-se no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA).
6. Urutu (O ovo) (1928)

A obra Urutu, também conhecida como O ovo, caracteriza-se por seu simbolismo complexo. Apresenta uma cobra, animal bastante temido devido à sua capacidade de envenenamento. Há também um ovo enorme, simbolizando o nascimento de uma ideia ou de um projeto inovador.
O simbolismo da transformação
Estes símbolos relacionam-se diretamente com o movimento modernista que estava emergindo no país, especialmente com a fase antropofágica. A cobra pode representar o perigo da transformação, enquanto o ovo simboliza o renascimento cultural.
Esta fase propunha "devorar" as ideias das vanguardas artísticas europeias e transformá-las em uma nova arte preocupada com a cultura nacional.
A tela foi criada em 1928, pintada em tinta a óleo, mede 60 x 72 cm e integra o acervo da Coleção Gilberto Chateaubriand, no Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio de Janeiro.
7. A Lua (1928)

Na composição A Lua, a artista apresenta uma paisagem noturna com cores saturadas e formas sinuosas. A lua e o cacto aparecem de maneira bastante estilizada, criando uma atmosfera onírica e contemplativa.
A composição, produzida em 1928, pertence à fase antropofágica de Tarsila e mede 110 x 110 cm. Em 2019, foi adquirida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) pelo valour considerável de 20 milhões de dólares (aproximadamente 74 milhões de reais).
O reconhecimento internacional
A renomada galeria emitiu uma declaração demonstrando satisfação com a aquisição: "Tarsila é uma figura de fundação para a arte moderna no Brasil e uma protagonista central nos intercâmbios transatlânticos e culturais deste movimento."
8. Antropofagia (1929)

Em Antropofagia, Tarsila uniu duas obras produzidas anteriormente: A Negra (1923) e Abaporu (1928). Nesta tela, a artista funde as duas figuras, como se elas possuíssem uma dependência mútua.
A imagem da mulher negra é apresentada com a cabeça diminuída, fazendo par com a cabeça de Abaporu. Os seres encontram-se entrelaçados como se fossem um só e integram-se à natureza circundante.
A visão de Rafael Cardoso
Rafael Cardoso, historiador de arte, define a obra da seguinte maneira: "Em Antropofagia as coisas não se transformam. Elas apenas são; subsistem, com uma terrível e sólida permanência que as ancora no chão."
O quadro foi pintado em 1929, constitui um óleo sobre tela com dimensão de 126 x 142 cm e pertence à Fundação José e Paulina Nemirovsky, em São Paulo.
9. Operários (1933)

Na década de 1930, com a imigração e o impulso capitalista, muitas pessoas desembarcaram em centros metropolitanos, especialmente São Paulo, vindas de diversas partes do Brasil para suprir a necessidade de mão de obra barata que as fábricas exigiam.
O início da Fase Social
Nesta época, Tarsila inicia sua última fase modernista, chamada de Fase Social, na qual explora temas de cunho coletivo e social. A artista questiona as adversidades vindas da industrialização, a concentração de riquezas nas mãos de poucos e a exploração a que muitos estão sujeitos.
A pintora realiza então a tela Operários, na qual exibe o rosto de diferentes pessoas, de várias etnias, mas que possuem em comum uma expressão de exaustão. Nesta composição, a massa de gente aparece como o retrato dos trabalhadores fabris da época.
Este trabalho de 1933 mede 150 x 205 cm e está localizado no Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão.
10. Segunda Classe (1933)

A tela Segunda Classe também pertence à fase social da artista. A composição retrata pessoas em uma estação de trem, representando uma realidade muito comum no período: o êxodo rural, que constitui a migração do campo para as cidades de indivíduos que partem em busca de melhores condições de vida e oportunidades.
O retrato da migração interna
No fundo, há a figura de uma mulher com uma criança de colo e um homem idoso. Do lado externo do vagão, quatro mulheres, três homens e cinco crianças apresentam expressões cansadas e sem esperanças, retratando uma realidade muito comum no período.
As cores escolhidas na composição são acinzentadas e não têm mais a intensidade e vivacidade das outras fases modernistas da pintora. Esta obra foi produzida com a técnica de óleo sobre tela, possui 110 x 151 cm e faz parte do acervo de uma coleção particular.
Quem foi Tarsila do Amaral?

Tarsila do Amaral nasceu em 1 de setembro de 1886 no interior paulista, na cidade de Capivari. Estudou arte na Europa e teve contato com grandes mestres que faziam parte das vanguardas artísticas no início do século XX.
Em meados dos anos 1920, retornou ao Brasil e passou a produzir obras com temas brasileiros. Nesta época, casou-se com o artista e agitador cultural Oswald de Andrade, com quem iniciou um movimento transformador da arte nacional, juntamente com outras personalidades importantes.
Um legado duradouro
Tarsila faleceu em 1973, aos 86 anos, deixando uma produção artística de enorme relevância para a história da arte brasileira e consolidando-se como uma das principais figuras do modernismo nacional.
Lembre-se!
Pontos-chave para relembrar:
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Tarsila do Amaral foi uma figura central do modernismo brasileiro, contribuindo decisivamente para a consolidação de uma arte nacional renovada
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Sua obra atravessou três fases distintas: Pau-Brasil (1924-1928), Antropofágica (1928-1930) e Social (1930-1950), cada uma refletindo diferentes contextos culturais e sociais
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Abaporu (1928) é sua obra mais famosa, inspirando o movimento antropofágico e representando a "devoração" das influências europeias para criar uma arte genuinamente brasileira
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Suas obras da fase social abordam questões urbanas e trabalhistas, como em "Operários" e "Segunda Classe", que retratam os impactos da industrialização e migração interna
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Tarsila combinou elementos da vanguarda europeia com temáticas brasileiras, criando uma linguagem visual única que valorizava a cultura nacional e questionava as transformações sociais do país