História do Sertanejo (ENEM Artes): Notas de revisão
História do sertanejo
O que é música sertaneja?
A música sertaneja é um estilo musical brasileiro que tem suas raízes profundamente conectadas ao interior do país, especificamente nas regiões rurais conhecidas como sertão. Este gênero musical representa uma expressão cultural autêntica do Brasil rural, refletindo as experiências, tradições e modo de vida das comunidades do interior.
O sertanejo nasceu das tradições de contar histórias através da música, utilizando principalmente a viola como instrumento central. Essas narrativas musicais, conhecidas como "causos", eram uma forma de entretenimento e transmissão de conhecimento nas comunidades rurais.
A palavra "sertão" refere-se às regiões do interior do Brasil, caracterizadas por áreas rurais, muitas vezes áridas, que contrastam com as zonas urbanas costeiras. É fundamental compreender que o sertanejo não se limita apenas ao Nordeste, mas abrange todo o interior brasileiro.
Origens e primeiros desenvolvimentos
As origens do sertanejo remontam aos tempos coloniais, quando a viola foi trazida para o Brasil pelos colonizadores portugueses. Este instrumento de cordas tornou-se fundamental na catequização dos povos indígenas pelos jesuítas, que reconheceram o poder da música para fins educativos e religiosos.

A viola era utilizada não apenas em contextos religiosos, mas também em festividades populares como procissões, Folia de Reis, festas do padroeiro e celebrações do rosário. Gradualmente, desenvolveu-se uma tradição de cantar de forma "anasalada" - um estilo vocal característico onde a letra ganha mais importância que a melodia, criando um som que muitos descrevem como lamentoso.
No Brasil rural, era comum que grupos de tropeiros que conduziam gado pelas fazendas incluíssem alguém dedicado especificamente a tocar viola. Esses músicos não apenas animavam as jornadas, mas também contavam "causos" ao redor das fogueiras, perpetuando tradições orais através da música.
O estilo "anasalado" de cantar é uma característica distintiva da música sertaneja tradicional, onde a voz assume um tom nasal que enfatiza a narrativa das letras. Esta técnica vocal reflete a influência da tradição oral brasileira na formação do gênero.
Diferenças entre música caipira e sertaneja
Uma questão importante na compreensão deste gênero musical é distinguir entre música caipira e música sertaneja. Embora muitos considerem esses termos intercambiáveis, há diferenças geográficas e culturais significativas.
Segundo o pesquisador musical Zuza Homem de Mello: "A música caipira é uma parte da música sertaneja, [que está] localizada no estado de São Paulo. A música sertaneja é a música do sertão brasileiro, de todo sertão brasileiro."
Esta distinção é fundamental para compreender que a música caipira representa uma manifestação regional específica, enquanto a sertaneja abrange todo o território nacional.
Cada região desenvolveu características próprias: no Centro-Oeste, por exemplo, a música sertaneja recebeu influências de danças como o siriri e o catira. No Nordeste, elementos da cultura árabe, como o baião e o xaxado, contribuíram para dar cor e ritmo únicos às melodias sertanejas.
Evolução da música caipira
A música caipira, como manifestação cultural do Brasil rural, retratava a vida no campo através de canções acompanhadas pela viola. Com o tempo, foram incorporados outros instrumentos como o violão e a sanfona, enriquecendo a sonoridade do gênero.

Um marco fundamental na história da música caipira foi a contribuição de Cornélio Pires, compositor e empresário de Tietê, São Paulo. Ele foi responsável pelo primeiro sucesso comercial significativo do gênero, promovendo em 1929 a primeira gravação da música "Jorginho do Sertão", interpretada pela dupla Mariano & Caçula.
Marco Histórico: A Primeira Gravação
Em 1929, Cornélio Pires revolucionou a música caipira ao promover a primeira gravação comercial do gênero:
- Música: "Jorginho do Sertão"
- Intérpretes: Dupla Mariano & Caçula
- Significado: Primeiro sucesso comercial da música caipira
- Impacto: Abriu caminho para a expansão do gênero via rádio
Com o surgimento do rádio, a música caipira expandiu-se pelo território brasileiro, alcançando até mesmo as grandes cidades como o Rio de Janeiro. Este fenômeno ocorreu paralelamente ao processo de industrialização do país e ao êxodo rural, fazendo com que a música caipira se espalhasse por todo o território nacional.
É importante notar que nos anos 1920 e 1930, o termo "caipira" carregava conotações pejorativas. Com as ideias de modernização e industrialização, a música caipira era vista como representante de um ambiente rural que a República desejava superar. Personagens como o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, exemplificavam as críticas da época aos costumes rurais.
Transformação em música sertaneja
Para superar os preconceitos associados ao termo "caipira", o gênero passou a ser denominado música sertaneja, incorporando novos instrumentos e temas ao seu repertório.
Nos anos 1970, duplas como Milionário & José Rico trouxeram inovações significativas, incorporando elementos da música ranchera mexicana e adotando um estilo mais elaborado de cantar e tocar instrumentos.
Durante os anos 1980, foram introduzidos sintetizadores, baterias eletrônicas e melodias com influências pop. Artistas como Leandro & Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, Roberta Miranda e João Paulo & Daniel representaram esta nova vertente do sertanejo.
A modernização do sertanejo nos anos 1970-80 representou uma ruptura significativa com a tradição. A incorporação de instrumentos eletrônicos e influências pop foi controversa, mas essencial para a sobrevivência comercial do gênero em um mercado musical em transformação.
Neste período, a música sertaneja começou a aparecer em trilhas sonoras de novelas e programas de televisão, ganhando visibilidade nacional e conquistando novos públicos urbanos.
Sertanejo universitário
O sertanejo universitário representa a adaptação da música sertaneja ao século XXI, sendo considerado herdeiro direto das transformações ocorridas no gênero durante os anos 1980.
Esta vertente moderna dispensa as duplas tradicionais, podendo ser apresentada por artistas solo. Incorpora elementos da estética do country americano, além de temáticas românticas e urbanas. Uma característica marcante é o surgimento de duplas e bandas femininas, ampliando a diversidade do gênero.
O sertanejo universitário tem como propósito principal fazer as pessoas dançarem, diferenciando-se da música caipira tradicional que priorizava a audição atenta das letras. Esta transformação reflete uma mudança cultural significativa na forma como o público se relaciona com a música sertaneja.
Mudança de Paradigma
A transição do sertanejo tradicional para o universitário representa uma mudança fundamental:
- Antes: Foco na narrativa e na audição atenta das letras
- Depois: Priorização da dançabilidade e do entretenimento
- Impacto: Ampliação do público e comercialização do gênero
Para distinguir este estilo moderno das raízes tradicionais, utiliza-se o termo "música sertaneja de raiz" para designar o gênero praticado até o final do século XX.
Sertanejo raiz - os clássicos fundamentais
Com o desenvolvimento do sertanejo universitário, tornou-se necessário diferenciar as composições tradicionais daquelas mais modernas. Assim, as canções do início do século XX passaram a ser denominadas "sertanejo de raiz".
Os Clássicos do Sertanejo de Raiz
Entre as dez músicas sertanejas de raiz mais reconhecidas no Brasil, destacam-se:
- Pagode em Brasília - Teddy Vieira e Lourival dos Santos
- Estrada da Vida - José Rico
- Jorginho do Sertão - Cornélio Pires
- Menino da Porteira - Teddy Vieira
- Chico Mineiro - Tonico e Francisco Ribeiro
- Tristeza do Jeca - Angelino de Oliveira
- Luar do Sertão - Luiz Gonzaga
- Chitãozinho e Xororó - Serrinha
- Romaria - Renato Teixeira
- Telefone Mudo - Trio Parada Dura
Essas composições são consideradas fundamentais para compreender a evolução e as características essenciais do sertanejo tradicional, representando diferentes períodos e estilos dentro do gênero.
Pontos-Chave para Lembrar:
- A música sertaneja originou-se das tradições rurais brasileiras, especialmente do uso da viola para contar histórias ("causos")
- Existe diferença entre música caipira (específica de São Paulo) e sertaneja (abrangendo todo o sertão brasileiro)
- Cornélio Pires foi fundamental para o sucesso comercial do gênero com a primeira gravação em 1929
- O sertanejo evoluiu incorporando novos instrumentos e estilos, especialmente nos anos 1970-80
- O sertanejo universitário modernizou o gênero, tornando-o mais dançante e urbano, diferenciando-se do "sertanejo raiz" tradicional