As unificações tardias: italiana e alemã (ENEM História): Notas de revisão
As Unificações Tardias: Italiana e Alemã
Introdução
As unificações tardias referem-se aos processos de consolidação nacional da Alemanha e da Itália no século XIX. Estes movimentos representaram a transformação de territórios fragmentados em Estados nacionais unificados, alterando significativamente o equilíbrio de poder na Europa.
As unificações alemã e italiana foram processos tardios em comparação com outras nações europeias como França e Inglaterra, que já haviam consolidado suas unidades nacionais séculos antes.
A Unificação Alemã (1834-1871)
Contexto Histórico
O expansionismo napoleônico foi fundamental para desencadear o processo de unificação alemã. Napoleão criou a Confederação do Reno entre os Estados germânicos, iniciando um movimento de aproximação política entre territórios de cultura germânica. Este processo culminaria com a unificação em janeiro de 1871.
O cenário político estabelecido por Napoleão foi posteriormente fragmentado pela política reacionária de Metternich, líder austríaco preocupado em restaurar o equilíbrio de poder na Europa e consolidar o absolutismo no continente, prejudicando os nacionalismos emergentes.
Otto von Bismarck: O Arquiteto da Unificação
A unificação alemã enfrentou o desafio de integrar trinta e nove Estados independentes, sendo o Reino da Prússia o mais influente. O processo político de unificação teve como protagonista Otto von Bismarck, ministro do rei Guilherme I e representante da aristocracia militarizada junker.
Bismarck desenvolveu um projeto caracterizado por suas habilidades diplomáticas e militares. O plano para criar uma Grande Alemanha (Grossdeutsche) foi uma iniciativa de Bismarck, na qual a Prússia assumiria a liderança na luta contra o conservadorismo austríaco.
O Zollverein: União Econômica Alemã
O primeiro passo para a unificação foi a criação do Zollverein, uma união aduaneira entre os Estados alemães liderados pela Prússia. Esta união tinha como princípios básicos:
- Livre circulação de mercadorias, serviços, capitais e mão de obra entre os Estados-membros
- Existência de tarifas externas e internas comuns aos Estados signatários
- Padronização do sistema de pesos e medidas
A unificação política alemã foi precedida por uma unificação econômica, demonstrando a estratégia pragmática de Bismarck de criar vínculos econômicos antes dos políticos.
A Política do "Sangue e do Ferro"
Em 1862, Guilherme I nomeou Bismarck para o governo, momento em que o líder político declarou que "os grandes problemas de nossa época não se resolvem com discursos ou votações majoritárias, mas através do sangue e do ferro".
A estratégia de Bismarck, conhecida como "política do sangue e do ferro", consistia em obter a criação da Confederação Alemã através de guerras de unificação nacional. No âmbito interno, o "chanceler de ferro" buscou anular os movimentos democráticos e liberais através de um regime autoritário que limitava as manifestações da oposição.
As Três Guerras de Unificação
1. Guerra contra a Dinamarca (1864)
Em novembro de 1863, com a morte do rei Frederico VII da Dinamarca, Bismarck iniciou sua política. O novo rei, Cristiano IX, anexou formalmente os ducados de Schleswig e Holstein, o que era proibido pelo Tratado de Londres de 1852. A Prússia deliberadamente desrespeitou o Pacto de Gastein, ocupando não apenas Schleswig, mas também Holstein.
2. Guerra das Sete Semanas (1866)
Esta guerra contra a Áustria marcou a emergência do Estado prussiano, derrotando os austríacos e liderando a formação da Confederação Germânica do Norte. A vitória consolidou a posição interna de Bismarck como chefe político, apoiado pelo Partido Liberal Nacional.
3. Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)
A terceira manobra militar da unificação alemã foi o embate contra os franceses. Bismarck procurou reduzir a influência da Áustria e da França através de uma política externa beligerante e pragmática, conhecida como Realpolitik.
A guerra teve início devido à questão da sucessão do trono espanhol. Em setembro de 1870, na batalha de Sedan, o exército francês foi derrotado pelo general prussiano Von Moltke. A monarquia francesa foi derrubada, iniciando o conturbado período da III República.
A Proclamação do Império Alemão (1871)
Em 18 de janeiro de 1871, no salão dos espelhos do palácio de Versalhes, foi proclamada a unificação alemã com a coroação do Kaiser Guilherme I.
Este ato fomentaria o nacionalismo exacerbado alemão (germanismo) e o sentimento de revanche francês, que levariam à Primeira Guerra Mundial.
A Unificação Italiana (1815-1871)
Contexto Histórico
A Península Itálica sempre foi uma região que guardou algumas das mais preciosas obras artísticas da humanidade. Desde o período do Império Romano, passando pela história da instituição do catolicismo como poder universal até o Renascimento Cultural, a região italiana foi um centro cultural importante.
Contudo, a fragmentação política da Itália parecia ter colocado um obstáculo durante o Antigo Regime, suscitando novas paixões no século XIX. O Risorgimento, movimento pela unificação da Itália, alteraria completamente o mapa da região.
O Congresso de Viena (1815)
O Congresso de Viena, reunião das potências vencedoras contra as medidas tomadas pela França napoleônica, adotou o princípio de equilíbrio europeu ou territorialidade. As fronteiras do Velho Continente deveriam retornar ao status anterior à Revolução Francesa.
O equilíbrio, preconizado por Metternich, delegou à Península Itálica uma divisão em cerca de oito Estados ou regiões distintas. O pequeno reino do Piemonte-Sardenha, onde a nobreza cultivava o francês como idioma corrente, daria 46 anos depois o primeiro rei para a Itália: Vitor Emanuel.
Os Protagonistas da Unificação
Giuseppe Mazzini
A Giovine Itália, sociedade patriótica revolucionária fundada pelo nacionalista Giuseppe Mazzini em 1832, foi uma das maiores expressões do sentimento contra a dispersão política e controle estrangeiro. Mazzini defendia o ideal liberal radical republicano.
Conde de Cavour
Típico aristocrata que advogava um liberalismo limitado e monárquico. Cavour seria o diplomata hábil que conduziria o processo de unificação.
Giuseppe Garibaldi
Defensor do ideal liberal radical republicano, Garibaldi seria o líder militar da unificação.
A unificação italiana contou com três figuras complementares: Mazzini (o idealista teórico), Cavour (o diplomata pragmático) e Garibaldi (o líder militar carismático). Cada um representava uma faceta essencial do movimento de unificação.
O Processo de Unificação
Em 1858, conforme os acordos de Plombières e Turim entre o Piemonte e a França, Cavour ordenou uma ofensiva militar contra as tropas austríacas estacionadas na Lombardia. Esta ação ficou conhecida como "política das gorjetas", exigindo de Cavour o compromisso de respeitar os Estados centrais pertencentes à Igreja Católica.
As derrotas austríacas em Magenta (4 de junho de 1859) e Solferino (24 de junho de 1859) não feriam mortalmente os austríacos, que mantiveram seu domínio sobre o território da Venécia.
A Marcha dos Mil Camisas Vermelhas
Entre 1860 e 1861, Giuseppe Garibaldi organizou a marcha dos "mil camisas vermelhas", na qual a assustada aristocracia do sul concordou com o projeto nacionalista e conservador de Cavour. Foram realizados plebiscitos em favour da unificação na Sicília, Úmbria e Marca.
Em março de 1861, Vitor Emanuel foi proclamado rei dos italianos. A Igreja Católica, pela Encíclica Syllabus errorum de 1864, condenou o sindicalismo, o liberalismo, o nacionalismo e a democracia.
A Conclusão da Unificação
Em 1866, com a derrota austríaca frente ao exército de Bismarck, os italianos aproveitaram para ocupar finalmente a Venécia. Entre setembro de 1870 e janeiro de 1871, completou-se a unificação italiana no século XIX: os franceses, que garantiam a segurança dos Estados Papais, foram derrotados pelos prussianos de Bismarck.
Os italianos ocuparam Roma, que se tornaria a nova capital do Reino, e o Papa Pio IX foi confinado no bairro do Vaticano, criando a famosa "Questão Romana" que só seria resolvida com os Acordos de Latrão em 1929.
Consequências das Unificações
Ambas as unificações tardias alteraram profundamente o equilíbrio europeu, criando duas novas potências no centro da Europa. A Alemanha unificada emergiu como uma força militar e econômica dominante, enquanto a Itália unificada consolidou-se como um Estado nacional moderno, embora com desafios internos significativos.
As unificações alemã e italiana representaram o triunfo do princípio das nacionalidades na Europa do século XIX, mas também contribuíram para o aumento das tensões que levariam aos conflitos do século XX.
Pontos-Chave para Lembrar:
- Otto von Bismarck foi o principal arquiteto da unificação alemã através da "política do sangue e do ferro"
- O Zollverein (união aduaneira) precedeu e facilitou a unificação política alemã
- As três guerras de unificação alemã foram contra Dinamarca (1864), Áustria (1866) e França (1870-1871)
- A unificação italiana envolveu três figuras-chave: Mazzini (idealista), Cavour (diplomata) e Garibaldi (militar)
- Ambas as unificações foram concluídas em 1871, alterando definitivamente o mapa político europeu