O final do século e o parnasianismo (ENEM Literatura): Notas de revisão
O final do século e o parnasianismo
Contexto histórico
O final do século XIX foi marcado por grandes transformações nos meios de produção no Brasil e no mundo. O avanço da industrialização tornou possível um crescimento econômico nunca antes experimentado, com o uso da energia elétrica e do petróleo acelerando ainda mais o funcionamento e desenvolvimento das fábricas. Assim, a burguesia consolidou seu poder, já que mantinha os meios de produção, aumentando seus lucros e fortalecendo suas posições políticas.
Durante este período, vítimas da crescente exploração capitalista estavam o proletariado, excluído do processo econômico e submetido a condições de trabalho desumanas em troca de salários baixíssimos.
O contexto socioeconômico do final do século XIX foi fundamental para compreender o surgimento das estéticas literárias da época. Enquanto o Realismo e o Naturalismo se preocupavam com as questões sociais decorrentes da industrialização, o Parnasianismo seguiu um caminho diferente, voltando-se para a valorização da forma e da técnica poética.
Também foi uma época de grande desenvolvimento do pensamento humano, com reflexos expressivos nas ciências naturais e humanas. Movimentos filosóficos como o positivismo e o marxismo ganharam-se aos científicos, como o darwinismo, para emprestar uma visão menos idealizada do mundo, portanto mais objetiva e distanciada do dogmatismo religioso.
No Brasil, por sua vez, não estava alheio às transformações do mundo. Aqui, os movimentos abolicionista e republicano ganhavam corpo e conquistavam importantes objetivos sociais e políticos: o fim da escravidão e a proclamação da República. Desta maneira, o país adentrava-se ao pensamento europeu, separando a Igreja do Estado, organizando o sistema judiciário do país e estabelecendo um regime de maior participação popular.
Estética parnasiana
O Parnasianismo foi contemporâneo do Realismo e do Naturalismo, portanto influenciado pelos mesmos elementos históricos dos outros movimentos; contudo, a estética parnasiana diferencia-se ideologicamente por não se preocupar com a temática social ou mesmo com a reflexão sobre o homem e sua condição.
Diferença fundamental do Parnasianismo
Ao contrário do Realismo e Naturalismo, que se voltavam para questões sociais e análise da condição humana, o Parnasianismo deliberadamente se afastava dessas preocupações, focando exclusivamente na perfeição técnica e na busca da beleza formal.
O racionalismo que dominava a época traduziu-se em objetivismo, sem rejeição dos excessos românticos e em crítica ao sentimentalismo. A arte não era mais vista como um simples entretenimento; era necessária a busca da beleza, a arte pela arte. A poesia não mais servia às emoções humanas, mas à própria Arte.
O poeta, alienado socialmente, inspirava-se na Antiguidade Clássica, na mitologia greco-latina como uma forma de negar os princípios do Romantismo e garantir prestígio entre as camadas mais letradas do Brasil. O artificialismo é uma de suas principais características, visto ser uma poesia que valorizava excessivamente a forma (os sonetos, as rimas ricas, a métrica perfeita), ostentando um nível vocabular refinado e grande rigour gramatical.
Origem do nome Parnasianismo
O nome Parnasianismo tem origem na Grécia antiga, segundo a lenda. Parnaso é o nome de um monte da Fócida, consagrado a Apolo e às musas. É o monte onde nasceu Castália, a musa inspiradora dos poetas. Esta referência clássica reforça a preferência do movimento pela cultura greco-latina.
Por consagrar a arte do belo, a estética torna-se impassível e impessoal. É uma arte excessivamente descritiva, cheia de adjetivos e imagens poéticas elaboradas. O objetivo maior é o culto da forma na busca de atingir a perfeição.
Os temas parnasianos resumem-se a alguns episódios históricos, fenômenos naturais e a descrição detalhada de objetos decorativos como vasos e enfeites em geral. A mulher no Parnasianismo é vista com objetividade, contrapondo-se às idealizações românticas. Desta forma, a sensualidade e o amor carnal eram cultivados pelos parnasianos. A deusa da beleza Vênus era o padrão feminino, revelando também a preferência pelas figuras pagãs da Antiguidade.
Autores parnasianos
O Parnasianismo fez bastante sucesso em sua época, estendendo-se da década de 80 do século XIX até a Semana de Arte Moderna em 1922. Coube a Teófilo Dias, com a publicação de Fanfarras (1882), inaugurar o movimento, que teve como representantes poetas como Alberto de Oliveira, Francisco Júlia, Raimundo Correia, Olavo Bilac e Vicente de Carvalho.
Alberto de Oliveira
Antônio Mariano Alberto de Oliveira foi farmacêutico, professor e poeta, nasceu em Palmital de Saquarema, RJ, em 28 de abril de 1857, e faleceu em Niterói, RJ, em19 de janeiro de 1937. Cursou também a Faculdade de Medicina até o terceiro ano, onde foi colega de Olavo Bilac, com quem, desde logo, estabeleceu as melhores relações. Sua casa em Niterói ficou famosa por ser frequentada pelos mais ilustres escritores brasileiros, entre os quais Olavo Bilac, Raul Pompéia, Raimundo Correia, Aluísio e Artur Azevedo. Nessas reuniões, só se conversava sobre arte e literatura.
Alberto de Oliveira foi uma espécie de líder do Parnasianismo, até por ser o poeta que melhor encarnou as características do movimento. O estilo de Oliveira é fino e intelectualizado, com predileção pelo preciosismo formal e gramatical. Sua poesia é descritiva, presa pelo objetivismo e pelas cenas exteriores, o amor da natureza, o culto da forma, a pintura da paisagem, a linguagem castiça e a versificação rica.
Alienação social dos parnasianos
Ao mesmo tempo em que fervilhava social e politicamente a vida na cidade, com as lutas abolicionistas e republicanas, Alberto de Oliveira dizia: "Eu hoje dou a tudo de ombros, pouco me importam paz ou guerra, e não faço pensar!". Esta postura exemplifica perfeitamente o distanciamento social característico do movimento parnasiano.
Fiel ao Parnasianismo até o fim da vida, manteve-se distante dos problemas sociais e políticos apenas a cultivar a arte pela arte.
Exemplo de Poesia Parnasiana: "Vaso grego"
Esta de áureos relevos, trabalhada De divas mãos, brilhante copa, um dia, Já de aos deuses servir como cansada Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia Então, e, ora repleta ora esvaziada, A taça amiga aos dedos seus tingia Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira-lhe as bordas Finas hás de ouvir, canora e doce Ignota voz qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas Qual se essa voz de Anacreonte fosse.
Este poema exemplifica perfeitamente as características parnasianas: descrição detalhada de um objeto decorativo (vaso grego), referências à Antiguidade Clássica (Olimpo, Anacreonte), métrica elaborada e linguagem erudita.
Raimundo Correia
Nasceu a 13 de maio de 1859, em um navio ancorado em águas maranhenses. Estreou na poesia como romântico, influenciado por Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. Sua segunda fase é a que mais nos interessa, pois é nela que se faz perfeitamente parnasiano.
É um dos autores mais sensíveis, influenciado pelo pessimismo do pensador alemão Arthur Schopenhauer - que defendia a ideia de que todas as dores e males do mundo provêm da vontade de viver -, produziu poemas cheios de sombras e lúgubres, ainda que tenha adotado a perfeição formal como princípio. Apresenta temática tipicamente parnasiana, como a natureza, a perfeição dos objetos e a cultura clássica. Produziu também poesias filosóficas de meditação, na qual dialogava com o pessimismo e fazia reflexões de ordem moral e social.
Transição para o Simbolismo
A parte final da obra de Raimundo Correia revela um processo de transição, a qual alguns chamam de terceira fase: seu pessimismo, em meio a cenas naturais e sensações, busca refúgio na metafísica e na religião. Seu estilo oscila entre a descrição e a sugestão de imagem, com aspectos de musicalidade e sinestesia, demonstrando claramente a transição para o Simbolismo.
Exemplo: "As pombas" (Sinfonias, 1883)
Vai-se a primeira pomba despertada... Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas De pombas vão-se dos pombais, apenas Raia sangrenta e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada Sopra, dos pombos de novo elos serenos Ruflando as asas, sacudindo as penas, Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam, Os sonhos, um por um, céleres voam, Como voam as pombas dos pombais:
No azul da adolescência as asas soltam, Fogem... Mas dos pombos às pombas voltam, E eles aos corações não voltam mais...
Este soneto demonstra a melancolia característica de Raimundo Correia, utilizando a metáfora das pombas para falar sobre a perda dos sonhos juvenis. Note a perfeição formal típica do Parnasianismo combinada com o tom pessimista do autor.
Olavo Bilac
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro a 16 de dezembro de 1865 e parecia destinado ao verso clássico: já que seu próprio nome é um verso alexandrino, com doze sílabas métricas. Seu pai o queria médico, mas Olavo abandonou a faculdade de Medicina e foi estudar Direito em São Paulo, curso também que não concluiu. Trabalhou como inspetor escolar e jornalista.
Ao contrário de outros poetas parnasianos, Olavo mostrava-se envolvido com ideias republicanas e nacionalistas. Patriota e nacionalista, defendeu a instrução primária, da educação física e do serviço militar obrigatório; escreveu também o Hino à Bandeira e dedicou-se a alguns temas de caráter histórico-nacionalista. Foi nessa mesma época que escreveu outro hino: "Profissão de Fé", o poema definitivo dos poetas parnasianos, em que compara o ofício do poeta ao de um ourives, o profissional que fabrica, desenha e entalha joias e pedras preciosas.
O "Príncipe dos Poetas"
Com o título de Príncipe dos Poetas, Bilac fez enorme sucesso junto aos jovens e gozava do mesmo respeito das camadas mais letradas da sociedade. Sua obra é marcada pela busca da perfeição formal, escrevia versos alexandrinos e buscava conciliar seus poemas com "chaves de ouro" (versos finais de grande impacto).
Exibia uma linguagem elaborada, com inversões de estruturas gramaticais. Bilac foi sempre fiel aos princípios do Parnasianismo, não permitindo que os acontecimentos políticos e sociais de sua época - inclusive o seu exílio em Ouro Preto por opor-se ao governo de Floriano Peixoto - não influenciassem sua poesia. Mesmo assim, Bilac escreveu também livros escolares, crônicas e poesias satíricas.
Exemplo: "Profissão de fé" (fragmento)
Invejo o ourives quando escrevo: Imito o amor Com que ele, em ouro, o alto relevo Faz de uma flor.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara A pedra firo: O alvo cristal, a pedra rara, O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me, Sobre o papel A pena, como em prata firme Corre o cinzel.
Corre, desenha, enfeita a imagem, A ideia veste, Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem Azul-celeste.
Este poema é considerado o manifesto do Parnasianismo brasileiro. Bilac compara o trabalho do poeta ao do ourives (joalheiro), enfatizando a importância da técnica, do trabalho cuidadoso com as palavras e da busca pela perfeição formal. A metáfora da pena como cinzel reforça a ideia de que a poesia é um trabalho de arte manual, meticuloso e técnico.
Pontos-chave para lembrar:
- O Parnasianismo foi um movimento literário contemporâneo ao Realismo e Naturalismo, mas focava na perfeição formal ao invés de questões sociais
- "Arte pela arte" era o princípio fundamental - a poesia deveria buscar a beleza e perfeição técnica, não servir a propósitos externos
- Os três grandes poetas parnasianos foram Alberto de Oliveira (líder do movimento), Raimundo Correia (influenciado pelo pessimismo) e Olavo Bilac (Príncipe dos Poetas)
- Características técnicas incluíam sonetos, rimas ricas, métrica perfeita, vocabulário refinado e temas da Antiguidade Clássica
- O movimento durou da década de 1880 até a Semana de Arte Moderna de 1922, sendo muito popular em sua época