Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis (ENEM Literatura): Notas de revisão
Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis
Introdução
Joaquim Maria Machado de Assis é reconhecido como um dos maiores escritores da literatura brasileira e mundial. Sua obra representa um marco na evolução literária nacional, estabelecendo-se como "mestre na periferia do capitalismo" através de sua capacidade única de retratar a sociedade brasileira do século XIX com profundidade psicológica e crítica social refinada.
A genialidade machadiana reside na forma como conseguiu, a partir da realidade brasileira do século XIX, criar uma literatura universal que dialoga com os grandes mestres da literatura mundial. Sua posição periférica geograficamente não impediu que produzisse uma obra de alcance central na literatura ocidental.
Machado desenvolveu uma técnica narrativa inovadora que antecipou muitos dos recursos utilizados pela literatura moderna, como o fluxo de consciência, a metaliteratura e a ironia estrutural.
Biografia
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e faleceu na mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Sua origem foi marcada pela simplicidade: filho do operário Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina, perdeu a mãe muito cedo e foi criado pela madrasta Maria Inês.
Durante sua juventude, Machado enfrentou dificuldades financeiras que limitaram seu acesso à educação formal. Mesmo assim, desenvolveu-se como autodidata, trabalhando desde jovem em diversos empregos. Aos 15 anos, começou a colaborar com jornais e revistas, iniciando sua carreira literária com a publicação do soneto "A Ilha" no Periódico dos Pobres em 1854.
Superação das adversidades sociais
Apesar das limitações impostas por sua origem humilde e pela falta de recursos, Machado conseguiu construir uma carreira literária sólida através da dedicação aos estudos autodidáticos e do trabalho constante na imprensa da época.
Sua trajetória profissional incluiu trabalhos na imprensa e no serviço público. Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, portuguesa que se tornou sua companheira por mais de 35 anos. Este casamento foi fundamental para sua estabilidade pessoal e desenvolvimento intelectual.
Um marco importante em sua carreira foi a nomeação como primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Em 1897, tornou-se presidente perpétuo da Academia Brasileira de Letras, instituição que ajudou a fundar.
Estilo literário
A obra de Machado de Assis apresenta uma evolução estilística marcante, dividida tradicionalmente em duas fases distintas. Sua produção inicial, influenciada pelo Romantismo, caracterizava-se por uma abordagem mais convencional dos temas e formas literárias.
Primeira fase romântica
Durante este período, que se estende até aproximadamente 1880, Machado produziu obras que seguiam os padrões românticos da época. Suas personagens eram mais idealizadas, os enredos seguiam estruturas convencionais, e a linguagem mantinha-se dentro dos padrões esperados pelo público leitor.
Esta fase, embora menos celebrada, foi essencial para o amadurecimento do escritor, permitindo-lhe dominar as técnicas narrativas tradicionais antes de desenvolver seu estilo próprio e inovador.
Segunda fase realista
A partir de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881), Machado iniciou sua fase madura, caracterizada por inovações técnicas e temáticas que o consagraram como precursor do Realismo brasileiro. Esta fase revela um escritor mais maduro, capaz de criar personagens complexas e situações que refletem profundamente a natureza humana.
Exemplo: Inovação Narrativa em "Memórias Póstumas"
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado revoluciona a narrativa ao criar um narrador defunto que conta sua própria história post-mortem. Esta técnica permite uma perspectiva única sobre a vida e a sociedade, livre das convenções sociais que limitariam um narrador vivo.
As características principais desta fase incluem:
- Análise psicológica profunda: Exploração dos aspectos mais íntimos da personalidade humana
- Crítica social sutil: Observação irônica da sociedade fluminense do século XIX
- Técnicas narrativas inovadoras: Uso de narradores não convencionais e estruturas experimentais
- Pessimismo elegante: Visão cética da natureza humana expressa com refinamento literário
- Universalidade temática: Abordagem de questões que transcendem tempo e espaço
Técnica do "Capricho" Narrativo
Machado desenvolveu uma técnica única de interromper a narrativa com reflexões, digressões e comentários diretos ao leitor, criando um estilo que seria mais tarde reconhecido como precursor da literatura moderna.
Obras principais
A produção literária de Machado de Assis abrange diversos gêneros, demonstrando sua versatilidade como escritor. Suas obras podem ser organizadas nas seguintes categorias, revelando um projeto literário abrangente e consistente ao longo de mais de quatro décadas de atividade.
Poesias
- Crisálidas (1864)
- Falenas (1870)
- Americanas (1875)
- Poesias completas (1901)
Romances
- Ressurreição (1872)
- A mão e a luva (1874)
- Helena (1876)
- Iaiá Garcia (1878)
- Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
- Quincas Borba (1891)
- Dom Casmurro (1899)
- Esaú e Jacó (1904)
- Memorial de Aires (1908)
Os cinco últimos romances constituem o que a crítica considera a obra-prima machadiana, representando o ápice de sua maturidade artística e técnica narrativa.
Contos
- Contos Fluminenses (1870)
- Histórias da meia-noite (1873)
- Papéis avulsos (1882)
- Histórias sem data (1884)
- Várias histórias (1896)
- Páginas recolhidas (1899)
- Relíquias de casa velha (1906)
Teatro
- Queda que as mulheres têm para os tolos (1861)
- Desencantos (1861)
- Hoje avental, amanhã luva (1861)
- O caminho da porta (1862)
- O protocolo (1862)
- Quase ministro (1863)
- Os deuses de casaca (1865)
- Tu só, tu, puro amor (1881)
Obras póstumas
- Crítica (1910)
- Teatro coligido (1910)
- Outras relíquias (1921)
- Correspondência (1932)
- A semana (1914/1937)
- Páginas escolhidas (1921)
- Novas relíquias (1932)
- Crônicas (1937)
- Contos Fluminenses - 2º volume (1937)
- Crítica literária (1937)
- Crítica teatral (1937)
- Histórias românticas (1937)
- Páginas esquecidas (1939)
- Casa velha (1944)
- Diálogos e reflexões de um relojoeiro (1956)
- Crônicas de Lélia (1958)
- Conto de escola (2002)
Importância literária
Machado de Assis representa um divisor de águas na literatura brasileira. Sua capacidade de combinar técnica narrativa sofisticada com observação social aguda estabeleceu novos padrões para a ficção nacional. Sua influência estende-se muito além das fronteiras brasileiras, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes mestres da literatura mundial.
O escritor conseguiu, através de sua obra, criar uma síntese única entre a realidade local brasileira e as grandes questões universais da condição humana. Sua técnica narrativa influenciou gerações de escritores e continua sendo objeto de estudo em universidades ao redor do mundo.
Reconhecimento Internacional
Estudos comparativos colocam Machado de Assis ao lado de grandes nomes como Flaubert, Henry James e Dostoiévski, reconhecendo sua contribuição para o desenvolvimento da técnica romanesca moderna.
Sua obra antecipa muitas técnicas narrativas que seriam desenvolvidas posteriormente pela literatura moderna, demonstrando uma visão inovadora que o coloca como precursor de movimentos literários futuros. A metaliteratura, o questionamento da confiabilidade do narrador e a exploração da psicologia das personagens são apenas algumas das inovações que o consagraram.
Pontos-chave para lembrar:
- Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira
- Sua obra divide-se em duas fases: romântica (até 1880) e realista (a partir de 1881)
- "Memórias Póstumas de Brás Cubas" marca o início de sua fase madura e inovadora
- Fundou a Academia Brasileira de Letras e foi seu primeiro presidente perpétuo
- Sua produção abrange todos os gêneros literários: poesia, romance, conto, teatro e crônica
- Técnicas narrativas inovadoras que anteciparam a literatura moderna
- Reconhecimento internacional como um dos grandes mestres da literatura mundial