Figuras de linguagem: figuras de construção e de harmonia (ENEM Literatura): Notas de revisão
Figuras de linguagem: figuras de construção e de harmonia
O que são as figuras de linguagem?
As figuras de linguagem são recursos expressivos utilizados para dar maior força e beleza à comunicação. Elas se caracterizam por alterarem de alguma forma as regras tradicionais da gramática, seja no aspecto sintático ou sonoro, sempre em busca de maior expressividade. Quando falamos de figuras de construção e de harmonia, estamos nos referindo a dois grupos específicos que trabalham com diferentes aspectos da língua.
As figuras de linguagem podem ser classificadas em diferentes grupos: figuras de palavra, figuras de construção (ou sintaxe), figuras de pensamento e figuras de harmonia (ou sonoras). Este documento foca especificamente nas figuras de construção e figuras de harmonia.
Figuras de construção (ou de sintaxe)
As figuras de construção representam modificações intencionais na estrutura sintática tradicional das frases. Essas alterações servem para criar efeitos expressivos específicos, tornando o texto mais impactante e significativo. Elas podem ser organizadas em quatro categorias principais, cada uma com suas características particulares.
Figuras de construção por repetição
Este grupo engloba recursos que utilizam a repetição como elemento expressivo, criando ênfase e ritmo no texto.
Anáfora
A anáfora consiste na repetição intencional de uma palavra ou expressão no começo de versos, frases ou períodos consecutivos. Este recurso cria um efeito rítmico marcante e enfatiza a ideia repetida.
Exemplo Clássico - Olavo Bilac:
"Tudo é silêncio, tudo (é) calma, tudo (é) mudez"
Observe como a palavra "tudo" se repete no início de cada segmento, criando ênfase e musicalidade.
Pleonasmo
O pleonasmo apresenta a repetição desnecessária de uma ideia já expressa anteriormente, porém com propósito enfático. Diferentemente do erro gramatical, quando usado conscientemente, o pleonasmo serve para intensificar o sentido da mensagem. Podemos distinguir dois tipos:
O pleonasmo sintático trabalha com a repetição de elementos da estrutura gramatical, normalmente através de pronomes.
Exemplo de Pleonasmo Sintático:
"A mim, não me agradam tais comentários"
Note a repetição do complemento através de "a mim" e "me".
O pleonasmo semântico repete ideias presentes nos significados das palavras.
Exemplo de Pleonasmo Semântico - Martinho da Vila:
"Sonhei que estava sonhando um sonho sonhado"
A repetição das palavras relacionadas ao ato de sonhar intensifica a ideia.
Polissíndeto
O polissíndeto caracteriza-se pelo uso repetitivo de conectivos entre elementos que se coordenam, criando um efeito de acumulação ou insistência.
Exemplo - Olavo Bilac:
"Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua"
A repetição da conjunção "e" cria ritmo e enfatiza a sequência de ações.
Figuras de construção por omissão
Este conjunto trabalha com a supressão intencional de elementos, criando dinamismo e concisão expressiva.
Assíndeto
O assíndeto representa a supressão dos conectivos entre termos que se relacionam. Esta técnica acelera o ritmo da narrativa e cria um efeito de rapidez na ação.
Exemplo - Machado de Assis:
"A barca vinha perto, chegou, atracou, entramos"
A ausência de conectivos acelera o ritmo e cria dinamismo na sequência de ações.
Elipse
A elipse consiste na supressão de um termo da frase que pode ser facilmente compreendido pelo contexto.
Exemplo de Elipse:
"Um cavalheiro. Até na miséria, um cavalheiro"
Subentende-se "ele é" antes da segunda ocorrência de "um cavalheiro".
Zeugma
O zeugma representa um tipo específico de elipse onde um termo participa de duas ou mais construções simultâneas, aparecendo explicitamente apenas uma vez.
Exemplo de Zeugma:
"Eu fiz uma parte, Antônio fez outra e Sueli fez a última"
O verbo "fez" é omitido nas duas últimas orações, mas seu sentido permanece.
Figuras de construção por transposição
Estas figuras trabalham com alterações na ordem natural dos elementos na frase.
Hipérbato
O hipérbato promove a inversão da sequência natural das palavras na oração ou modifica a ordem das orações no período. Esta técnica também é chamada de "inversão".
Exemplo de Hipérbato:
"A casa, torno a ver, em que morava"
A ordem direta seria: "Torno a ver a casa em que morava".
Prolepse (ou antecipação)
A prolepse move um termo do interior de uma oração para o início do período, criando destaque especial.
Exemplo de Prolepse:
"Os pastores parece que vivem no fim do mundo"
A ordem direta seria: "Parece que os pastores vivem no fim do mundo".
Figuras de construção por discordância
Este grupo apresenta quebras intencionais nas regras de concordância e regência.
As figuras de discordância quebram propositalmente as regras gramaticais tradicionais para criar efeitos expressivos específicos. Não devem ser confundidas com erros de português!
Anacoluto
O anacoluto introduz um termo aleatoriamente na frase, sem que ele tenha função sintática específica dentro da oração.
Exemplo - José Régio:
"Bom Dani! Eu parece-me que ainda não ofendi ninguém!"
O termo "Eu" não tem função sintática específica na construção.
Hipálage
A hipálage transfere uma característica própria de um termo para outro elemento da oração.
Exemplo de Hipálage:
"As lojas francas dos barbeiros"
O sentido se refere aos barbeiros franceses, não às lojas francesas.
Silepse
A silepse estabelece concordância baseada no sentido ideológico, não nas regras gramaticais formais. Ela se subdivide em três tipos:
A silepse de gênero realiza concordância ideológica relacionada ao gênero da pessoa mencionada, não necessariamente ao gênero da palavra.
Exemplo de Silepse de Gênero:
"Senhor Presidente, Vossa Excelência parece cansado"
"Cansado" concorda com o gênero da pessoa (masculino), não com "Vossa Excelência" (feminino).
A silepse de número faz concordância ideológica com a quantidade real, não com o número gramatical do termo.
Exemplo de Silepse de Número:
"A multidão assistia com atenção. Ao final aplaudiram"
"Aplaudiram" concorda com a ideia de plural (várias pessoas), não com "multidão" (singular).
A silepse de pessoa estabelece concordância ideológica com uma pessoa diferente da expressa gramaticalmente na oração.
Exemplo de Silepse de Pessoa - Autran Dourado:
"Todos entramos imediatamente" ou "no fundo a gente se consolava, pensávamos em nós mesmos"
O verbo concorda com a pessoa que fala (1ª pessoa), incluindo-se no grupo.
Figuras de harmonia
As figuras de harmonia trabalham especificamente com os aspectos sonoros da linguagem, criando efeitos musicais e rítmicos que enriquecem a expressividade do texto. Estes recursos exploram a dimensão auditiva da língua para produzir sensações e impressões específicas.
As figuras de harmonia são especialmente importantes na poesia, onde o aspecto sonoro tem papel fundamental na criação de ritmo, musicalidade e atmosfera do texto.
Aliteração
A aliteração baseia-se na repetição expressiva de sons consonantais idênticos ou similares, criando efeitos sonoros marcantes. Este recurso pode imitar sons da natureza ou simplesmente criar um ritmo musical agradável.
Exemplo - Chico Buarque:
"Me deixa ser teu escudeiro, capucho, teu cacho, nacho de amor"
A repetição dos sons consonantais cria musicalidade e ritmo no verso.
Assonância
A assonância trabalha com a repetição de sons vocálicos idênticos ou semelhantes, produzindo efeitos melódicos sutis.
Exemplo - E. Parneto:
"Duma nuvem numa mansa manhã que não cansa"
A repetição dos sons vocálicos "u" e "a" cria suavidade melódica.
Onomatopeia
A onomatopeia consiste na criação ou utilização de palavras que procuram reproduzir ou imitar o som real do objeto ou ação representada. Estes vocábulos buscam estabelecer uma relação direta entre o som da palavra e o ruído que ela representa.
Exemplo - Manuel Bandeira:
"Sino de Belém, como soa bem! Sino de Belém bate bem-bem-bem"
As palavras imitam o som real dos sinos tocando.
Paronomásia
A paronomásia utiliza palavras com sons similares (parônimas) no final ou interior dos versos, criando jogos sonoros interessantes.
Exemplo - Ramos Filho:
"Por todo o dia / um certo verde / um inseto verde / o incerto ver-te"
O jogo entre "certo", "incerto" e "ver-te" cria efeito sonoro expressivo.
Pontos-Chave para Lembrar:
- Figuras de construção alteram a estrutura sintática tradicional para criar expressividade, dividindo-se em quatro tipos: repetição, omissão, transposição e discordância
- Figuras de harmonia trabalham com aspectos sonoros da língua, incluindo aliteração, assonância, onomatopeia e paronomásia
- Anáfora e pleonasmo são as principais figuras de repetição, criando ênfase através da reiteração intencional
- Elipse e zeugma representam omissões estratégicas que dinamizam o texto sem prejudicar a compreensão
- Efeitos sonoros das figuras de harmonia enriquecem a dimensão musical da linguagem, especialmente na poesia