Músicas da Ditadura Militar (ENEM Artes): Notas de revisão
Músicas da ditadura militar
Introdução
Durante o período da ditadura militar brasileira (1964-1985), a música popular se tornou uma das principais formas de resistência e contestação ao regime autoritário. Os compositores e intérpretes enfrentaram constante vigilância, censura e perseguição política, sendo obrigados a desenvolver estratégias criativas para expressar suas críticas ao governo militar.
Muitos artistas recorreram ao uso de metáforas, duplos sentidos e linguagem simbólica para conseguir driblar a censura. Quando essas estratégias não funcionavam, alguns foram forçados ao exílio para evitar prisão e perseguição.
Através de suas canções, esses músicos conseguiram transmitir mensagens de resistência, esperança e crítica social que marcaram profundamente a cultura brasileira.
Principais canções de resistência
1. "Apesar de você" (Chico Buarque, 1970)

Francisco Buarque de Holanda, conhecido como Chico Buarque, criou uma das mais importantes canções de resistência à ditadura militar. No final dos anos 1960, após críticas por não se posicionar politicamente, o compositor decidiu se exilar em Roma, retornando ao Brasil em 1970 com uma estratégia bem definida.
Estratégia de Chico Buarque para driblar a censura:
Seguindo o conselho do poeta Vinícius de Moraes, Chico voltou "fazendo barulho". Submeteu "Apesar de você" à censura explicando que se tratava de uma briga conjugal. A escolha do ritmo do samba reforçava a aparência de tema romântico, enganando completamente os censores.
Para surpresa do compositor, a música foi liberada e se tornou um sucesso estrondoso, tocando em rádios por todo o país. Quando os militares finalmente perceberam o verdadeiro significado da canção e tentaram censurá-la, já era tarde demais. A música havia se tornado um hino de resistência, com versos como "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia" transmitindo esperança de que o regime militar chegaria ao fim.
2. "Pra não dizer que não falei das flores" (Geraldo Vandré, 1967)

Esta composição do paraibano Geraldo Vandré se tornou uma das mais entoadas nas manifestações e passeatas contra o regime militar. A canção retrata de forma direta a realidade brasileira, conclamando a população a reagir contra a situação política que o país enfrentava.
Versos como "Pelos campos há fome, em grandes plantações" denunciavam a desigualdade socioeconômica do Brasil. O refrão "Vem, vamos embora, que esperar não é sabre" funcionava como um convite direto para a mudança e ação política.
A música foi apresentada no Festival Internacional da Canção de 1968, terminando em segundo lugar, perdendo para "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim. Após o festival, Geraldo Vandré deixou o Brasil e só retornou em 1973, nunca mais voltando ao cenário artístico brasileiro.
Curiosamente, apesar de sua canção ter sido amplamente utilizada pela oposição, Vandré nunca concordou completamente com o uso que a esquerda fez de sua composição. Ele nunca escondeu sua admiração pela Aeronáutica e chegou a escrever "Fabiana" em homenagem à Força Aérea Brasileira.
3. "O bêbado e a equilibrista" (Aldir Blanc e João Bosco, 1975)

Os compositores João Bosco e Aldir Blanc criaram uma das canções mais simbólicas sobre a redemocratização do Brasil. Ambos utilizaram metáforas complexas para fazer referência a eventos nunca explicados oficialmente pela ditadura militar, como a morte do jornalista Vladimir Herzog e a queda do viaduto Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro.
Inicialmente, a letra prestava homenagem a Charles Chaplin e seu personagem Carlitos. Depois de um encontro com o cartunista Henfil, foram acrescentados versos em alusão ao "irmão do Henfil", Betinho, que estava exilado na época.
A canção expressa perfeitamente o sentimento daqueles que clamavam pela anistia dos exilados e dos que perderam seus direitos políticos. Foi gravada em 1979, mesmo ano em que foi assinada a Lei da Anistia, tornando-se um hino daqueles tempos de transição democrática.
4. "Cálice" (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973)

Esta parceria entre Gilberto Gil e Chico Buarque resultou em uma das canções mais marcantes da oposição à ditadura. Composta em 1973, apenas foi liberada pela censura em 1975, demonstrando o impacto que causava nos órgãos de repressão.
Técnica da Paronímia em "Cálice":
A obra funciona como uma metáfora ao momento de súplica de Jesus Cristo, consciente de que seria morto, para que o Pai afastasse dele o cálice (destino). Gilberto Gil aproveitou de forma genial a paronímia produzida pelo som das sílabas, pois é possível também ouvir "cale-se" do verbo "calar-se".
Desta forma, a letra sugere que seja afastado do povo o "cale-se", ou seja, a censura imposta pelos ditadores. Na história bíblica, Jesus Cristo sabe que será torturado e que a morte será marcada pelo sangue. Da mesma maneira, a canção denuncia o sangue derramado pelos torturados nos porões da ditadura.
A melodia e o coro tornam a letra ainda mais impactante, especialmente quando a palavra "cale-se" é repetida cada vez mais forte, criando um efeito dramático que intensifica a mensagem de resistência.
5. "Alegria, alegria" (Caetano Veloso, 1967)

As composições do baiano Caetano Veloso também marcaram a crítica contra a ditadura militar. Entre as mais importantes está "Alegria, alegria", que inaugurou o movimento Tropicalismo no Brasil.
A música foi apresentada no Festival da Canção de 1967, terminando em quarto lugar, mas posteriormente consagrou-se como uma das mais importantes da história brasileira. Trata-se de uma marcha com forte influência da música pop americana, com Caetano acrescentando guitarras à instrumentação, sendo fiel à sua proposta de misturar influências estrangeiras com elementos nacionais.
A letra pode ser entendida como as impressões que uma pessoa encontra quando está "caminhando contra o vento". No último verso, há um desejo que se tornaria profético para todos os opositores à ditadura militar: "Eu quero seguir vivendo, amor".
Caetano Veloso seguiu junto com Gilberto Gil para o exílio entre 1969 e 1971, estabelecendo-se em Londres durante esse período.
6. "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos" (Roberto e Erasmo Carlos, 1971)
Roberto Carlos, ícone da música romântica brasileira e líder do movimento Jovem Guarda, nunca se declarou contra o regime militar. Sua música, que falava dos problemas da juventude, fazia com que o artista fosse visto como simpático à ditadura militar.
No entanto, em 1969, quando Gilberto Gil e Caetano Veloso foram "convidados" a se retirar do país, Roberto Carlos teve a oportunidade de visitá-los na capital britânica. Ao voltar para o Brasil, decidiu criar uma canção em homenagem ao amigo Caetano.
Uso da Metonímia por Roberto Carlos:
Se falasse de Caetano explicitamente, a letra seria censurada. A solução foi recorrer à metonímia e utilizar os caracóis dos cabelos de Caetano Veloso para fazer alusão ao artista sem precisar dizer seu nome.
Escrita em parceria com Erasmo Carlos, a letra faz menção à tristeza que Caetano estava vivendo no exílio. O sentimento é expresso em versos como "É o seu olhar tristonho, deixa sangrar no peito, uma saudade, um sonho".
O protesto não foi percebido pelos censores, acostumados com letras que tratavam de amor e paixão de maneira rocambolesca. Esta estratégia demonstra como até mesmo artistas considerados menos politizados encontraram formas sutis de expressar solidariedade aos colegas perseguidos.
Estratégias de resistência artística
Os músicos do período desenvolveram diversas técnicas para driblar a censura e expressar suas críticas ao regime autoritário. O uso de metáforas, paronímias e metonímias permitia que as mensagens chegassem ao público sem serem detectadas pelos censores.
Muitos compositores também recorreram ao exílio como forma de continuar produzindo e se mantendo seguros da perseguição política. O exílio, embora doloroso, permitiu que artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil mantivessem suas carreiras e retornassem ao Brasil com ainda mais força criativa.
A música se tornou, assim, um poderoso instrumento de resistência cultural, mantendo viva a crítica ao regime e oferecendo esperança à população que sonhava com a redemocratização do país.
Remember!
Pontos-chave para lembrar:
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A música foi fundamental na resistência à ditadura militar: Compositores e intérpretes usaram suas canções para contestar o regime autoritário e manter viva a esperança de mudança.
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Metáforas e duplos sentidos foram estratégias essenciais: Artistas desenvolveram técnicas literárias sofisticadas para driblar a censura, como paronímias ("Cálice"/"Cale-se") e metonímias (caracóis de Caetano).
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O exílio foi uma realidade para muitos artistas: Compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré precisaram deixar o Brasil para escapar da perseguição política.
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As canções se tornaram hinos de resistência: Músicas como "Apesar de você" e "Pra não dizer que não falei das flores" mobilizaram multidões e se tornaram símbolos da luta contra a ditadura.
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A diversidade de estratégias reflete a criatividade da resistência: Desde críticas diretas até homenagens disfarçadas, os artistas encontraram múltiplas formas de expressar sua oposição ao regime militar.