Realismo (ENEM Literatura): Notas de revisão
Realismo na literatura brasileira
Contexto histórico
O Realismo emerge na segunda metade do século XIX, período marcado por profundas transformações sociais, econômicas e científicas na Europa. A Revolução Industrial trouxe mudanças gigantescas para a sociedade, alterando completamente as estruturas econômicas e sociais existentes.
Durante esse período, a população começou a se concentrar nos centros urbanos, reflexo da própria industrialização. As cidades passaram a abrigar grandes contingentes populacionais vindos dos campos, criando uma nova dinâmica social. As indústrias e seus grupos econômicos expandiram sua influência, fazendo com que atuassem não apenas em seus países de origem, mas também dominando o mercado internacional.
Este cenário de transformação criou um ambiente propício para o surgimento de novas correntes de pensamento que questionavam as estruturas estabelecidas. A literatura realista surge justamente como resposta artística a essas mudanças sociais profundas.
Pequenos empreendimentos familiares perderam espaço para grandes fábricas e empresas, geralmente organizadas como trustes e cartéis, modificando profundamente a estrutura econômica da sociedade.
Influências ideológicas
O movimento realista foi moldado por quatro grandes correntes de pensamento que surgiram neste período de transformações:
Positivismo
Desenvolvido pelo filósofo francês Auguste Comte, o Positivismo defendia que a ciência era a única forma absoluta de conhecimento verdadeiro. Segundo esta corrente, o progresso da humanidade deveria vir dos avanços científicos, e apenas através da ciência seria possível compreender a realidade de forma objetiva.
O Positivismo estabelecia uma hierarquia no conhecimento, colocando a ciência no topo e rejeitando explicações metafísicas ou religiosas para os fenômenos. Esta filosofia influenciou profundamente a maneira como os artistas realistas passaram a observar e retratar a realidade.
Determinismo
Hippolyte Taine, pensador francês, desenvolveu a teoria determinista que defendia que o comportamento humano era determinado por três fatores fundamentais: a raça, o meio e o momento histórico.
Segundo o Determinismo, as características hereditárias (raça), o ambiente em que se vive (meio) e as circunstâncias históricas (momento) moldam completamente as ações e o destino dos indivíduos. Esta teoria negava o livre arbítrio, sugerindo que os seres humanos não têm controle real sobre suas escolhas e destinos.
Evolucionismo
As ideias de Charles Darwin sobre a evolução das espécies revolucionaram a compreensão científica do mundo. A teoria da evolução mostrava que as espécies se modificavam ao longo do tempo através de transformações graduais, adaptando-se ao ambiente em que viviam.
Para os artistas, a explicação darwiniana sobre a origem do homem retirou a divindade como fator principal na criação humana. O ser humano passou a ser visto não como uma criação divina especial, mas como resultado de um processo natural de evolução, submetido às mesmas condições materiais que outros seres vivos.
Socialismo científico
Karl Marx e Friedrich Engels desenvolveram uma análise crítica consistente do sistema capitalista burguês, denunciando a exploração da classe trabalhadora e os processos imperialistas. Eles mostraram como se dava o acúmulo de riquezas e as formas de produção que geravam desigualdades sociais.
Esta corrente revelou que os acontecimentos históricos eram determinados pelas condições materiais da sociedade e pela luta constante entre diferentes classes sociais - especialmente entre exploradores e explorados. O socialismo científico trouxe uma visão crítica das estruturas sociais e econômicas, influenciando movimentos operários e a literatura engajada.
A estética do período
O pensamento científico da época transformou completamente a abordagem artística. Os artistas passaram a atuar como verdadeiros cientistas, fazendo da representação da realidade um estudo detalhado dos fenômenos sociais e humanos. O cientificismo levou ao abandono da visão subjetiva romântica em favour de uma observação objetiva e analítica.
Os aspectos descritivos tornaram-se evidentes na arte, sempre com grande riqueza de detalhes e sem idealizações ou exageros. Os artistas buscavam retratar a realidade tal como ela era, documentando minuciosamente os ambientes e situações sociais.
Era comum que os artistas visitassem os lugares que retratavam, conversando com as pessoas que descreviam e estudando profundamente as condições que pretendiam representar. Esta abordagem quase jornalística garantia autenticidade às suas obras.
Características do realismo
Quando falamos em Realismo literário, não estamos nos limitando apenas a uma definição restrita. O termo engloba um conjunto de tendências artísticas que se opunham à visão romântica de mundo, desenvolvendo-se ao final do século XIX como uma resposta artística que buscava "a reprodução exata e sincera do ambiente social" em que vivia.
O sentimento que movia os realistas era completamente diferente daquele que inspirava os românticos. Agora, a matéria-prima do artista consistia na compreensão científica, sociológica e psicológica da realidade em geral.
Como verdadeiros cientistas, os artistas mantinham sua neutralidade diante dos fenômenos que observavam, sem emitir julgamentos particulares ou permitir que suas visões pessoais interferissem na representação.
O Realismo investigava objetivamente os indivíduos e suas diferentes classes sociais. Os artistas se dedicavam à análise psicológica detalhada, estudando o ser humano, seus conceitos, sua relação com a realidade de seu tempo e com o ambiente em que vivia. Cada personagem representava o grupo social ao qual pertencia, constituindo uma verdadeira tipificação social do indivíduo.
A análise se concentrava especialmente nos aspectos psicológicos, nas crises internas, conflitos e comportamentos que a sociedade esperava de cada pessoa. Toda essa forma de representar a realidade visava se afastar completamente dos princípios da verossimilhança romântica, rejeitando qualquer artificialismo típico dos românticos.
O naturalismo
O Naturalismo surge como uma variação do Realismo, sendo ambos os movimentos concomitantes no tempo. Embora compartilhem vários princípios realistas, o Naturalismo se caracteriza especialmente pela objetividade artística e pela busca de demonstração científica através da observação da natureza.
Esta corrente desenvolve uma visão científica da existência humana e da sociedade, baseada nas leis que regem a vida e o comportamento das pessoas. O Positivismo torna-se uma referência central no entendimento dessas obras, que frequentemente introduzem questões biológicas para retratar e explicar uma realidade nua e completamente conflituosa.
A hereditariedade biológica torna-se um fator determinante nas escolhas dos personagens, assim como o meio ambiente. O ser humano é visto como produto do ambiente em que vive, sendo completamente determinado por sua origem biológica e pela relação com o meio em que habita.
As narrativas naturalistas mostram a luta pela existência, apresentando uma sociedade onde os mais fortes prevalecem e onde não há limites éticos na busca pela supremacia. Aqueles que não conseguem se adaptar ou são mais fracos sucumbem à força bruta. É comum encontrar personagens doentes, anormais, degradados, com patologias que revelam histórias repletas de vícios, delinquências, crimes, incestos, degenerações, corrupções, além de prostitutas e homossexuais.
Realismo e naturalismo no Brasil
Diferentemente do Romantismo, que encontrou terreno favorável para se estabelecer esteticamente no país, o Realismo brasileiro enfrentou um contexto em que seria possível apenas um paralelo com as estéticas e críticas europeias. O Brasil não havia vivido a época da industrialização, nem experimentado os conflitos advindos dos novos modos de produção.
A situação brasileira ainda estava estabelecida pelos parâmetros liberais burgueses e pela consolidação da imagem nacional através do Império. Foi durante a crise do Império que o sentimento brasileiro começou a receber críticas mais contundentes.
A Guerra do Paraguai (1864-1870) representou um duro golpe para a monarquia brasileira, que passou a enfrentar críticas e perder representatividade junto a setores importantes da sociedade. Mesmo sendo vencedora do conflito, a nação pôde retomar as lutas políticas internas.
Oficiais do exército eram cooptados por ideias positivistas e a ideologia republicana começou a ganhar força nos círculos militares. O papel dos perseguidores de escravos fugidos tornou-se menos representativo, refletindo as aspirações de soldados, sargentos e tenentes por mudanças sociais.
Durante o agravamento do quadro financeiro, setores mais jovens das áreas urbanas desenvolveram um sentimento abolicionista. Os setores médios abandonaram as fileiras daqueles que apoiavam o regime, criando um sentimento abolicionista que se espalhava rapidamente. A partir da década de 1870, questões econômicas levaram à humanização dos debates - mais por questões econômicas do que por humanidade - colocando grandes escravocratas de um lado e uma emergente classe de novos produtores de outro.
Principais autores
Raul Pompeia
Autor em Destaque: Raul Pompeia (1863-1895)
Biografia: Nasceu em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, mas foi criado e estudou na capital fluminense. Após completar seus estudos no Colégio Pedro II, publicou seu primeiro livro, "Uma tragédia no Amazonas". Como estudante de Direito, residiu em São Paulo, mas posteriormente retornou ao Rio de Janeiro, onde se dedicou ao jornalismo e exerceu a advocacia.
Obra principal: "O Ateneu" - romance de caráter autobiográfico que narra as memórias do narrador-personagem Sérgio sobre seu período de estudante no internato Ateneu. A narrativa é conduzida pelo adulto Sérgio anos depois, sendo levada pelo colégio interno onde estudou, cujo diretor, Aristarco, atua como o imperador do colégio.
Características da obra: O livro apresenta uma linguagem forte, repleta de sonoridade e plasticidade. Apesar de suas características naturalistas, muitos preferem classificar o romance como impressionista devido ao seu caráter memorial e à forte carga emocional.
Aluísio Azevedo
Autor em Destaque: Aluísio Azevedo (1857-1913)
Biografia: Nasceu em São Luís, Maranhão. Após os primeiros estudos na capital maranhense, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Academia de Belas Artes. Rapidamente adotou a vida na capital, dedicando-se à política local e tornando-se um abolicionista convicto, além de trabalhar como chargista em alguns jornais.
Obra de destaque: "O Mulato" (1881) - escandalizou a população maranhense por abordar a questão do preconceito racial. Esta obra marca o início do Naturalismo no Brasil.
Carreira: Acabou abandonando a literatura para se dedicar à carreira diplomática, representando o Brasil em vários países. Faleceu em Buenos Aires, Argentina, em 1903.
Estilo: Dinâmico e ágil, retrata ambientes e realidades de forma objetiva e factual, criando imagens sensoriais marcantes e fazendo amplo uso da sinestesia e metáforas.
Pontos-chave para lembrar:
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O Realismo surgiu na Europa durante a segunda metade do século XIX, como resposta às transformações sociais causadas pela Revolução Industrial
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Quatro correntes ideológicas principais influenciaram o movimento: Positivismo (Auguste Comte), Determinismo (Hippolyte Taine), Evolucionismo (Charles Darwin) e Socialismo Científico (Marx e Engels)
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Os artistas realistas adotaram uma abordagem científica e objetiva, rejeitando a subjetividade romântica em favour da observação neutra da realidade social
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O Naturalismo é uma variação do Realismo que enfatiza ainda mais o determinismo biológico e ambiental na formação dos personagens
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No Brasil, o Realismo enfrentou dificuldades para se estabelecer devido ao contexto histórico diferente, mas ainda assim produziu obras importantes como "O Ateneu" de Raul Pompeia e "O Mulato" de Aluísio Azevedo